Como já alertado por Ted Goertzel (2010): “Teorias da
conspiração que têm como alvo pesquisas específicas podem ter sérias
consequências para a saúde pública e políticas ambientais”.
A citação acima está no artigo de 2010 publicado na EMBO reports por Ted Goertzel, “Conspiracy theories in science” (teorias da conspiração em
ciência), onde ele discorre sobre as consequências de tais ideias na população.
Atualmente, diversas teorias da conspiração vêm surgindo nas
ciências naturais, incluindo as ideias de que o aquecimento global é uma fraude
ou de que vacinas e alimentos transgênicos são nocivos. Mas aqui falarei mais
especificamente de outra teoria da conspiração que é tão ou mais grave do que
as citadas acima: a ideia de que a AIDS não é causada pelo vírus HIV.
O maior defensor desta teoria irracional é Peter Duesberg,
um professor de biologia molecular e celular na Universidade da California,
Berkeley. Desde 1987 (ou seja, há 26
anos!) ele defende tal ideia absurda que é rejeitada por todos os grandes grupos
de pesquisa em AIDS do mundo inteiro.
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Este é o senhor em questão. Mantenham-se atentos! |
Duesberg age principalmente exigindo respostas dos
pesquisadores, mas sem realmente prover qualquer evidência que suporte sua
ideia. A meu ver, ele poderia ser classificado como mais um portador de
Síndrome de Williamson, como já o são Donald Williamson (de onde vem o nome
deste estado delirante), defensor da hibridogênese, e Retallack, defensor da
Ediacara terrestre.
Em 1995, Duesberg entrou num debate com o editor da Nature,
John Maddox, a respeito deste assunto. O comportamento de Duesberg foi, no
entanto, tão estúpido que Maddox se cansou de continuar aceitando ouvi-lo.
Caso uma pergunta de Duesberg fosse deixada sem resposta, este imediatamente
considerava isso como prova de que o vírus HIV não causa a AIDS. Por outro
lado, qualquer evidência que refutava sua visão divergente era ignorada
completamente.
De qualquer forma, as ideias de Duesberg e seus seguidores
são tão absurdamente ridículas que a comunidade científica no geral tende a
simplesmente ignorá-lo. O problema é quando alguém com uma visão destas decide
se manifestar em meios de comunicação do público leigo.
Há algum tempo (em 2000, mais precisamente), a revista
brasileira de “divulgação científica” Superinteressante (que qualquer indivíduo
com bom senso sabe que hoje em dia não passa de uma publicação sensacionalista) decidiu fazer uma entrevista com
Duesberg. Na época, a tal entrevista passou praticamente ignorada, mas esta semana foi divulgada num website de notícias (ou o que quer que seja) brasileiro,
o “Vale Agora Web”. (Alguém já tinha ouvido falar desse website antes?)
De forma irresponsável, o site publicou a entrevista com
títulos chamativos e ilusórios, incluindo até mesmo mentiras, como uma
afirmação de que Duesberg é detentor de um prêmio Nobel, o que uma busca rápida
no website do prêmio já revela ser falso.
Rapidamente a notícia passou a ser compartilhada em redes
sociais por diversos jovens surpresos com a “revelação”, aparentemente crendo
que o que estava escrito ali se tratava de uma revelação “bombástica”. É triste
ver o quão facilmente o público leigo é convencido por aquilo que os meios de
comunicação não especializados divulgam. A falta de instrução neste campo faz com que a
população compre as ideias sem procurar analisar as fontes e o quão confiáveis
estas são.
Além de triste, tal situação também se torna alarmante, pois
pode levar a comportamentos imprudentes e diminuir o alcance de campanhas de
prevenção, como aquelas que incentivam o uso de preservativos e agulhas limpas.
Pesquisadores da AIDS argumentam que Duesberg se baseia em
leitura seletiva de publicações, ignorando aquelas que possam refutar sua ideia
e exigindo provas impossíveis dos grupos de pesquisas.
Políticas de publicação atuais alertam que cientistas com
descobertas controvérsias precisam ser cautelosos na divulgação de suas ideias.
É necessário, em tais situações, divulgar dados que permitam a outros grupos
replicarem os experimentos para tentarem chegar às mesmas conclusões.
Publicações científicas atuais são em sua quase totalidade
submetidas a um processo de revisão por outros pesquisadores, de forma anônima,
como garantia de que não haja influências pessoais ou profissionais no
julgamento do trabalho. Conspiracionistas, no entanto, tendem a atacar este
processo com ideias como as de que o anonimato implica que os revisores “escondem
alguma coisa”.
E é assim que estes pseudocientistas fazem para conseguirem
suas publicações: burlando o processo de revisão. Em 1989, Duesberg publicou um
artigo na revista PNAS sem passá-lo pelo processo de revisão, algo que parece
ser permitido para membros da National Academy of Sciences. Uma
versão anterior do artigo havia sido submetida a três revisores, todos os quais
encontraram uma série de problemas na exposição e argumentação das evidências,
incluindo um revisor sugerido pelo próprio Duesberg! Mesmo assim, com o auxílio
do editor da PNAS na época, o artigo foi publicado.
Agora se formos nos lembrar do caso de Donald Williamson,
uma situação semelhante ocorreu. Com uma ajudinha de Lynn Margulis, este
conseguiu publicar seu artigo sobre hibridogênese, por mais que toda a
comunidade científica ridicularize tal ideia.
No meu artigo sobre os delírios de Williamson, eu também
citei superficialmente que Lynn Margulis em seus últimos anos de vida estava
defendendo a ideia de que o HIV não é o causador da AIDS. Pois é, vejam só!
Escrevi o presente artigo muito rapidamente e sem intenções de
me aprofundar no assunto ou apresentar provas reunidas de que o HIV realmente
cause a AIDS. Há publicações científicas disponíveis sobre o tema aos milhares.
O meu objetivo aqui foi simplesmente apresentar esta situação e alertar sobre
os perigos de se acreditar em qualquer afirmação divulgada pelos meios de
comunicação. É preciso ser cauteloso e sensato.
A comunidade científica como um todo continua afirmando, com
provas suficientes para isso, de que o HIV é sim o agente causador da AIDS. Duesberg
e seus aliados são apenas arruaceiros pseudocientistas tentando disseminar
ideias conspiratórias.
Sejam inteligentes e não caiam nessa armadilha
pseudocientífica.
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Referências:
Booth, W.
(1989) AIDS Paper Raises Red Flag at PNAS. Science 243: 733. DOI:
10.1126/science.2916121
Cohen, J. (1994) The Duesberg Phenomenon. Science 266: 1642-1644.
Dieguez, F. (2000). Peter Duesberg. Superinteressante, outubro
de 2000. Disponível em: <http://super.abril.com.br/ciencia/peter-duesberg-441685.shtml>.
Acesso em 9 de dezembro de 2013.
Goertzel, T. (2010). Conspiracy theories in science. EMBO reports 11: 493-499. DOI: 10.1038/embor.2010.84
“Redação” (2013). Bomba! “O HIV é um vírus inofensivo e não
transmite a AIDS”, afirma ganhador do Nobel. Vale Agora Web. Disponível em:
<http://valeagoraweb.com.br/mundo/bomba-o-hiv-e-um-virus-inofensivo-e-nao-transmite-a-aids-afirma-ganhador-do-nobel/>.
Acesso em 9 de dezembro de 2013.